27.11.08

"SEI QUE NÃO VOU POR AÍ"


Antes, acreditava ser possível ensinar sem sorriso, perceber sem humor e estar, sem atitude positiva. Naquele tempo julgava a cara feia, indício de autoridade, a pasta de cabedal dava-me muito mais poder do que as palavras. Naquele tempo a escola era o lugar da postura erecta e do olhar sobranceiro, lugar de poucos risos e muita força.
Depois dos anos que ensinam mais que os livros, percebo que não sabia nada de nada. Hoje mastigo os disparates todos que proferia com uma gorda certeza. A certeza tola que se tem quando os trinta anos ainda não chegaram para avisar sobre a ignorância. Hoje a escola deixou de ser lugar de postura erecta para ser o lugar onde me divirto com posturas sobranceiras e poderes sérios. Hoje a escola é o lugar para onde vou aprender, lugar onde me sento a olhar. Em turma de teatro há sempre surpresas:
- Professora, já ouviu o Francisco declamar o Cântico Negro?
- Não, porquê?
- Então ouça. Vá Francisco, começa.
E o Francisco começou. Olhou para mim com os olhos firmes nas frases que o faziam sentir o que dizia bem alto:

Se ao que busco saber nenhum de vós responde
Por que me repetis: "vem por aqui!"?


Continuava convicto, cada letra lhe saia com a força do poder que ali estava:

Ide! Tendes estradas,
Tendes jardins, tendes canteiros,
Tendes pátria, tendes tetos,
E tendes regras, e tratados, e filósofos, e sábios...
Eu tenho a minha Loucura !

Em outro tempo não teria conseguido ouvi-lo, puniria o Francisco com todos os poderes que julgava possuir. Hoje aprendo a ternura, a raiva, o amor e o ódio dos alunos, dos que me ouvem sem saber quem sou, dos que acreditam no que digo sem que lhes dê qualquer prova. Hoje olho para eles e sei-os pessoas, raivas e amores que deitam fora quando a memória grita alto :


A minha vida é um vendaval que se soltou,
É uma onda que se alevantou,
É um átomo a mais que se animou...
Não sei por onde vou,
Não sei para onde vou
Sei que não vou por aí!


Quando o Francisco olhou para o chão e agradeceu as palmas da turma, entendi que há gestos muito mais poderosos que todos os manuais de Filosofia, que há pessoas que choram por dentro todos os dias, quando se sentam para ouvir aquilo que sou obrigada a ensinar. Depois, fico a saber que o Francisco é muito maior quando diz as palavras do poeta do que quando repete o manual que é obrigado a saber.

1 comentário:

Luis Eme disse...

sim, e como é bom aprendermos com os erros, embora alguns nos persigam. bom é que não sejam graves demais...

Malhoa? é o pintor da minha cidade...

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