5.7.08

CLAREZA



A dona deste blog retira-se por dois dias, como vem sendo hábito em fins de semana transparentes.

4.7.08

PARAGEM


(Frida Kahlo)

Saí incomodada com a paragem. Detive-me tempo demais a olhar para o quadro. Queria encontrar palavras que o dissessem e não consegui.

3.7.08

MAIS QUE MULHER


Pouco conhecia da sua vida quando, em Lisboa, olhei os quadros e as emoções. Mantive-me ao nível da ignorância. Não é possível dizer de um quadro aquilo que, em essência, manifesta.
No caso de Frida e perante o olhar de quem não viveu como ela, não sentiu e não amou como se, da carne, o sangue jorrasse, fiquei quieta e inquieta. No primeiro caso, porque a sensação nascia de uma alma branda, no segundo, porque de um corpo, horrores se recordavam.
Do sofrimento nascem as mais estrondosas obras.

2.7.08

SLAVOJ ZIZEK

11 - FRIDA KAHLO



Natural de Coyoacán no México, onde nasceu no ano de 1907, Frida Kahlo cresceu no seio de uma família de misturada ascendência. O pai era um judeu de origem alemã, a mãe de origem espanhola e índia. Decidida a estudar medicina, a jovem Frida sofre um grave acidente que a obriga a permanecer deitada durante um ano, deixando-lhe irreversíveis sequelas. É durante os períodos de imobilidade que começa a pintar, optando por retratar o seu próprio quebrado e doente corpo. Aos 21 anos conhece Diego Rivera, com quem casa em 1929. Para além da impressionante obra que deixou, sendo hoje famosos os seus auto-retratos e gosto pelas fortes cores da vida e da morte, a artista mexicana deixou um valioso testemunho escrito.

Morreu em 1954, vítima de embolia pulmonar. No seu diário a última frase: "Espero alegremente a saída - e espero nunca mais voltar - Frida".

1.7.08

COISAS QUE ME INQUIETAM (4)


Mulheres independentes, modernas e emancipadas assustam grande parte da população masculina. Não entendo a razão pela qual o susto acontece face àquilo que teoricamente se defende.

30.6.08

LONGE DE MIM


(Souza Cardoso)

Às vezes penso nos amigos que já não vejo há muito tempo, aqueles que desapareceram da minha vida porque sim. Penso nas conversas bonitas, nas noites em Lisboa e em outras paragens, nas compras na Fnac, nas mãos dadas, nas roupas trocadas, nos jantares longos, nas escadas subidas, nas rampas descidas, no som das palavras, no suor dos corpos, nas músicas escolhidas, nas lareiras acesas, nos abraços com lágrimas, nas verdades, nas mentiras, nas cadeiras onde se sentavam, no sofá onde dormiam, nas cartas que escreviam, nos quadros que pintavam, nas comidas ao lume, nas mesas postas em sossego, nos tangos não dançados, nos amores não vividos, nos beijos não dados, nas plantas fora do jardim, nas desavenças, nos gritos, nos telefonemas, nas mensagens, nas ausências, nos silêncios.
Às vezes penso nos amigos que já não estão ao pé de mim, os que foram embora porque sim. Penso nos jacarandás, nos malmequeres, nos chinelos em pés nus, nas túnicas compridas, nas gargalhadas estridentes, nos gelados com amêndoas, no mel com queijo fresco, no carro perto do rio, nas velas acesas, nas cobras dentro de frascos, nos jardins em dias de sol, nas árvores frondosas, nos bancos de madeira e em todos os bancos onde hoje, longe de mim, se sentam com a mesma sensação que eu: a de que o tempo nunca apaga sentimentos feitos de ferro.

28.6.08

CORES

O Sábado é o dia das cores. Levanto-me quando o encarnado está perto, vivo no amarelo das horas e saio quando o preto me leva ao verde sempre limpo. Depois, o branco recolhe-me no quente do corpo.

27.6.08

MORTE


As plantas morrem no dia em que decido cuidar delas. Tenho pena.

CIDADE

Ver o "Sexo e a Cidade" com o amigo dos abraços e dos bombos era tudo o que eu precisava hoje.
A noite está quente, bonita, clara. Vim até casa a 50Km à hora, não por querer ser cumpridora, mas porque não me apetecia chegar!

26.6.08

RISO SÓ MEU


(Souza Cardoso)

Há dias, parei em frente a uma loja de roupa. Olhei para o manequim escanzelado com olhos pretos e ri-me. Parecia estar a ver alguém desconhecido que se vestia para mim. Ainda pensei entrar para lhe testar os braços, mas achei mais prudente ficar no riso absurdo de um momento só meu.

25.6.08

O BULE DO CONTENTAMENTO


(Souza Cardoso)

Saí com a mochila posta nas costas. Era tarde de chuva em Lisboa. Passeei entre os pingos grossos que me levavam a lugar incerto. As montras estavam limpas. Olhei-as com desdém. Largo do Chiado vazio de pessoas, cheio de gente ocupada. Tinha nas mãos coisa nenhuma e no entendimento a alegria de algumas produções escritas que, pela primeira vez, tinham tido retribuição simbólica. Sabia que aquela quantia estava nas mãos de quem precisa de uma coisa com importância, para ficar acima do tempo.

Desci as ruas de calçada com a dúvida fora de mim. Lisboa ia oferecer-me, naquele dia, um objecto que contasse as histórias das minhas noites com a chávena de chá verde.

Depois de muitos passos, perto do largo de Camões, parei em frente a uma loja de chás. Verdes, brancos, pretos. Entrei. A senhora sorriu e indicou-me um lugar perto do vidro molhado. O chá foi servido com as mãos de quem sabe e a ampulheta que conta os minutos desejados até chegar o aroma e o sabor que se procuram devagar. Bebi-o com os olhos postos no bule. Encarnado, quadrado, pesado e quente. Sabia-o meu, fruto das palavras que tantas vezes ofereci. Peguei nele com a convicção de que iria fazer parte da melodia dos meus parágrafos. Levantei-me e paguei, com o contentamento de quem, pela primeira vez, paga uma relíquia com o fruto dos seus solitários momentos de criação.

24.6.08

NÃO SEI


(Souza Cardoso)

Não sei se é tristeza ou contentamento. Não sei o que, por dentro, acontece. Sei os dias que vão embora, sem marca. Os que ficam em registo ou em memória, são os que tive inteiros. Os que se foram embora, são os que perdi na sombra de um falso contentamento ou tristeza revisitada.

23.6.08

COISAS QUE ME INQUIETAM (3)

Há uma tendência generalizada para a tristeza. As notícias catastróficas são mote de conversa e opinião. Os dramas humanos fazem manchete e o enorme contentamento é empurrado para páginas secundárias ou notas de roda pé.

10 - AMADEO DE SOUZA CARDOSO



Amadeo de Souza-Cardoso nasceu a 14 de Novembro de 1887 em Manhufe, próximo de Amarante, e morreu em Espinho, vítima de “pneumónica”, ou gripe espanhola, a 25 de Outubro de 1918.
Em 1906, parte para Paris com Francis Smith e instala-se no Boulevard de Montparnasse. Estuda Arquitectura, frequentando os ateliers de Godefroy e de Freynet, mas acaba por desistir do curso, por estar mais interessado em desenvolver uma actividade de desenhador e caricaturista, permanecendo atento ao movimento artístico parisiense.
A evolução da pintura de Amadeo acaba por se encontrar naturalmente com as suas pesquisas gráficas. A partir de 1911, o pintor recupera o vocabulário decorativo dos seus desenhos, concentrando-se na definição de um estilo pessoal.
Alguns encontros em Lisboa, com Almada Negreiros e o grupo de Orpheu, estabeleceram rituais de cumplicidade entre as artes e as letras, integrados no movimento futurista.
Nos seus dois últimos anos de vida, Amadeo concentra e excede toda a sua energia criativa na construção de uma síntese de referências. Precocemente desaparecido, Amadeo, em escassos anos de trabalho, entre Paris e Manhufe, desenvolveu a mais séria possibilidade de arte moderna em Portugal.

(Helena de Freitas; Adaptação)

19.6.08

DOBRAS E GRITOS (22)


Rui Pelejão; in: PnetHomem

VIZINHO (3)



Tem, desde miúdo, o hábito de escrever recados que deixa colados na porta do frigorífico. Têm sempre quatro linhas, postos sempre no mesmo sítio. Todas as manhãs os coloca antes de buscar o leite fresco do pequeno almoço. Não há dia em que o esquecimento tome lugar na porta branca da cozinha pequena. Cola o post it religiosamente e olha atento para as palavras que escreve para ninguém.

18.6.08

VIZINHO (2)




Nasceu numa aldeia seca do Alentejo. Viveu uma infância lânguida, encostado à cal da esquina de uma rua pequena e estreita. Cresceu com a esperança no acontecer. Dedicou-se às finanças e casou cedo com uma comadre roliça, de sorriso gorduroso. Foi chefe de repartição. Todos os dias se enchia de si por isso mesmo. Não teve filhos, dedicou o tempo ao amor adiado e à profissão inventada.

17.6.08

VIZINHO (1)


Tem o rosto magro e alongado, fundas rugas e olhos tristes. Trabalhou, durante muitos anos, num daqueles escritórios com muita gente e poucas pessoas. Viúvo e sozinho, não se lembra da forma como se inicia um diálogo, esqueceu as palavras e a vida. Anda, a cada passo, com o olhar posto no chão e o sorriso escondido no cansaço e no vazio árido dos dias por viver.

16.6.08

BELO REGRESSO


(Salvador Dalí)

Estou tão descansada, tão descansada. Estou tão calma tão calma. Estou tão cheia de contentamento que julgo não ser preciso escrever mais nada.

13.6.08

VOU-ME EMBORA


(Salvador Dalí)

Tempo de correr para onde o sol se põe devagar. Estarei longe de tudo o que não me contenta. Vou-me embora, à procura do caminho até ao mar.

12.6.08

FÚRIA


(Salvador Dalí)

Quando, há muito tempo, não viajei para longe, fiquei parada no pensamento de uma ausência de lugar onde não estive. Queria ficar de fora, do lado dos que vêem de baixo para cima, dos que percebem os voos impossíveis e lentos, como a fúria do ruído das viagens por fazer.

11.6.08

LUGAR MENOR


(Salvador Dalí)

Uma sala de espera é sempre um lugar menor. Não me ocorre nenhuma circunstância em que se possa considerar o espaço, lugar de agradáveis momentos.

10.6.08

NUNCA


(Salvador Dalí)

A seguir à refeição, depois de apetites saciados, nunca a expressão "estou cheia" pode ser pronunciada. Em nenhuma circunstância.

9.6.08

GRITO DA SEMANA


(Salvador Dalí)

À procura do desejo. Venham brandas as palavras quando se altera o vazio. Venha a busca dos motivos da vida que não se encarna. Venha a força, a vontade, a candura e a verdade. Venha o desejo de ser.

8.6.08

DOBRAS E GRITOS (21)

Soube que Baptista Bastos, diz ser Lisboa uma cidade feminina.
É absolutamente verdade.

9 - SALVADOR DALÍ



Pintor espanhol, representante do surrealismo, pintou algumas das obras clássicas dessa escola, empregando desenho refinado e técnica meticulosa para criar imagens provocativas e alucinadas a que chamava "sonhos fotográficos pintados à mão".
Nasceu a 11 de maio de 1904, na pequena cidade catalã de Figueras. O seu mundo interior era Figueras, a planície de Ampurdán e a aldeia de pescadores, logo atrás das montanhas. Estes são os cenários da grande maioria de seus trabalhos.
Dalí insistiu na sua "linhagem árabe", alegando que os seus antepassados eram descendentes de mouros que ocuparam o sul da Espanha por quase 800 anos e atribui a isso, "o seu amor por tudo o que é excessivo, a sua paixão pelo luxo e o seu amor oriental por roupas".

Tinha uma reconhecida tendência para atitudes extravagantes, destinadas a chamar a atenção, o que por vezes aborrecia os que apreciavam a sua arte, ao mesmo tempo que incomodava os seus críticos. A sua forma de estar teatral e excêntrica, tendia a eclipsar o seu trabalho no que à notoriedade diz respeito.
A 23 de Janeiro de 1989, morreu de insuficiência cardíaca com 84 anos. Está sepultado na cripta do seu
Teatro - Museu Dalí, em Figueras.

7.6.08

VALSA, VINHO, VELUDO E SEDA



Naquela semana o texto estava escrito. A sua editora não podia reclamar. Eficiência garantida. Desta vez, encostou-se no sofá, de frente para a prateleira de livros antigos, enfileirados por épocas e autores. Olhava-os como se lesse, todos os dias, uma história diferente. Inventava, com o cigarro de enrolar entre os dedos, os episódios mais sublimes que alguma vez supusera. Viagem a Veneza na época das caras pintadas e dos corpos vestidos de outrem.

Não quis fechar os olhos às palavras e abriu um dos volumes empoeirados. Página 50: Sim, poucos seres tem havido mais naturais do que eu. O meu acordo com a vida era total, eu aderia ao que ela era, de alto a baixo, sem nada recusar das suas ironias, da sua grandeza, nem das suas servidões (Albert Camus; A Queda). Agora as palavras seguiam, rumo à Praça de S. Marcos. Gordas. Viscosas. Empacotadas em máscaras.

Continuava a vida na sala pouco iluminada que se enchia de fumo. Não podia evitar fechar os olhos, de novo.A casa tinha-os acolhido num fim-de-semana em Veneza. O lugar onde os corpos se encontraram pela segunda vez. Espelhos altos, molduras douradas e Frescos de Miguel Ângelo. Ninguém era, naquela noite, mais que máscara polida pelas luzes dos castiçais. Olharam-se por detrás das caras coladas a si e, deixaram que a noite existisse. O vinho era presença nas mesas baixas e os tecidos mexiam-se com a aragem vinda das janelas abertas para a Praça de S. Marcos. A sabedoria acompanhava-os desde a primeira noite em Montmartre, quando todos pareciam ter conhecido a nudez do tango.

Respiraram tudo o que o Carnaval oferece e a valsa presenteia. Elegância. Sensualidade. No lugar do piano, os punhos brancos e os dedos compridos de quem tocava Gymnopédie No.1 - Erik Satie.
No momento de acabar a história, o livro caiu-lhe das mãos. Acordou do sono inventado por instantes. Tinha aderido, de alto a baixo, à vida e às suas ironias, suas servidões e seus prazeres.

A noite em Veneza acabou com o derradeiro beijo feito em texto, mexido com as mãos que lêem e os ouvidos atentos à obra.
Os Frescos continuavam pendurados no lugar das fantasias, encontradas no meio do cigarro feito com os dedos.

6.6.08

SEDA, VELUDO, VINHO E TANGO




Todas as semanas tinha que entregar um texto. Mil e quinhentos caracteres. A sua editora não lhe deixava tempo para o ócio. Encostou-se no sofá, de frente para o quadro das mulheres nuas, enroladas em homens de bonitas formas. Olhava-os como se visse, todos os dias, um episódio diferente. Inventava histórias com os corpos iluminados pelo candeeiro pequeno, propositadamente ali, a oferecer a luz que eles mesmos sentiam.
Fechou os olhos e voltou a pensar no texto que ainda não tinha escrito. A minha editora vai matar-me, não tenho tema. Pensou fumar um cigarro feito com os dedos mas não era o momento. O quadro continuava lá, as pessoas tinham ganho vida. Mexiam-se. Dançavam. Envoltos. Suados. Nus. Riam alto, como se o grito lhes quisesse dizer o êxtase do cheiro que o tempo ia oferecendo.
Inspirou o fumo do cigarro por fumar e fez a história. Inteira. A casa tinha-os acolhido num fim-de-semana em Montmartre. O lugar onde os corpos se encontraram pela primeira vez tinha, nas paredes gastas, quadros de Toulouse-Lautrec. Olharam-se, como se a cor do incenso pudesse testemunhar tudo. Enrolaram a noite e a vida em seda, veludo, vinho e tango. O som era tão nítido quanto o aroma. Para lá dos corpos e dos risos, a sabedoria. Respiraram o viço do que não é corpo enquanto, o próprio corpo, se mantinha aceso.
A noite era pura porque a nudez o permitia, o tango se ensaiava e os tecidos se mexiam. Todos usavam palavras mornas, as que se dizem no meio do clima criado para permanecer. No momento de acabar a história, abriu os olhos devagar e percebeu que o seu quadro coincidia com a sua fantasia. Aquela noite em Paris, tinha permanecido no início de uma manhã cinzenta mas límpida, porque todos os corpos estavam inteiros da sabedoria posta no silêncio, no veludo, na seda, no vinho e no tango.

5.6.08

4.6.08

SEIS PEQUENOS ÓDIOS

Respondo ao desafio que me foi feito aqui.
Pedem-me para confessar seis pequenos ódios. Não sou pessoa dedicada a sentimentos pretos, de qualquer forma, há coisas que me causam brotoeja tal que não me coíbo de as mencionar:

1 - Barulho de motas em aceleração.
2 - Mentira.
3 - Superficialidade.
4 - Beijos com saliva em excesso.
5 - Gente que não usa desodorizante.
6 - Falta de sentido de humor.

(Nota: Tenho que acrescentar a inveja. A invejazinha fedorenta que tanto corrói o invejoso.)

Deixo o desafio à Teresa C., Marta, Manuel, Leonor, Tatiana e Alba.

PALAVRAS COM CORPOS


(Graça Morais)

As palavras que usamos não são nossas mas, se as dissermos com o corpo inteiro, passam a ser nossa propriedade no momento. Quanto às que escrevemos, é imperioso o cuidado. O corpo não está nelas e, por isso, devem escolher-se com outro tipo de critério.

2.6.08

ADEUS

Morreu o "homem que deu o poder às mulheres." Yves Saint Laurent deixa, para sempre, a marca do bom gosto no mundo da moda.

NOVO TEMPO


(Graça Morais)

Semana nova perto de mim. Coisa complicada, principalmente quando afazeres se aglomeram. Espero o tempo dos prazeres alegres.

31.5.08

TRISTE PRAZER


(Graça Morais)

Encontrei pessoas que não via há muito tempo. Em alguns casos foi um prazer, em outros, uma experiência triste.

30.5.08

LONGE


(Graça Morais)

Mais um fim de semana longe do barulho sumido dos carros e do canto dos pássaros na minha janela. Do primeiro, eu fujo sempre que posso, do segundo levo as saudades que, de volta, sacio com prazer.

29.5.08

TRANSFORMAR É PRECISO


(Graça Morais)

Mais importante que saber sentir a tristeza, é saber transformá-la numa qualquer energia que sirva, positivamente, para criar.

28.5.08

UM LUGAR GIRO

O sítio do pica pau amarelo.

DIABO NO CORPO


(Graça Morais)


O grito da semana é o de uma intenção artística diabólica. Genial é aquele que tem "o diabo no corpo", como se fosse preciso sentir a força, o talento e a destreza de um qualquer anjo das trevas. Como se o êxito dependesse de uma energia estranha, capaz de granjear as formas que, mais que perfeitas, devem ser belas. Porque a beleza também é produto do olhar, podemos partir do princípio de que, demoníaco é aquele que transforma a força em forma artística.

27.5.08

VIÇO


(Graça Morais)

Que saiam de si as mulheres que sentem, nos corpos cansados, o prazer de o serem. Que saiam exaustas do grito e do vinco. Que corram em estradas com meias de seda. Que desçam avenidas em noites despertas e fiquem, para sempre, no lugar que lhes pertence: o da cor, do prazer e do viço.

26.5.08

8 - GRAÇA MORAIS



Graça Morais nasceu em Vieiro, Trás-os-Montes, a 17 de Março de 1948. Reside e trabalha em Lisboa. Concluiu o Curso de Pintura na Escola Superior de Belas-Artes no Porto em 1971. Em 1995 criou figurinos e cenários para a peça Ricardo II de Shakespeare no Teatro D.Maria II. Em 1997 executou painéis de azulejos para a estação Bielorussia do Metropolitano de Moscovo. Está representada nas colecções do CAM-Fundação Gulbenkian, do MAM de São Paulo, do MC-Casa de Serralves e do Ministério das Finanças, entre outras.


“Um quadro é sempre o lugar da minha maior intimidade. Estou lá toda. Tudo o que absorvo do exterior passa primeiro por dentro de mim, pelas minhas vísceras, pela minha cabeça. E depois sai e fica numa tela.”

(Graça Morais, 2002)

23.5.08

NECESSIDADES


(Kandinsky)

Comprei um objecto sem saber que precisava dele. Agora chego ao entendimento de que, há coisas necessárias, mesmo quando julgamos não nos fazerem falta.

21.5.08

POTES DE VIDRO

As coisas que em meninos pensávamos, eram sonhos dentro de potes de vidro. Víamo-los nítidos na transparência espontânea dos gestos irrequietos.

20.5.08

COISAS QUE ME INQUIETAM (2)


A desilusão acontece, provavelmente, para percebermos se somos capazes de continuar viver.

19.5.08

AQUILO EM QUE SE NÃO MEXE


(Kandinsky)

“Devido à nossa forma de avaliarmos o mundo, através dos sentidos, a ideia de que uma coisa pode existir em mais do que um estado ao mesmo tempo é absolutamente contra-intuitiva. Este é o prodígio do mundo quântico”, ensinou-me Deepack Chopra num livro que me ofereceram ontem. Mal podia imaginar que viria a escrever assunto tão fora do meu alcance. Certo é que, assim que peguei no livro, lembrei-me do famoso “Gato de Schrödinger e de como a experiência deste físico, me fez conversar uma noite inteira com quem entende do assunto.

Simplificando a ideia, trata-se apenas de entendermos que é a observação que transforma a possibilidade em realidade. É bom partirmos do princípio que estamos num mundo de possibilidades em aberto, de vidas ainda não vividas, de objectos não tocados e de ideias não concebidas. Pertencemos ao universo como o peixe pertence ao seu elemento vital. Estamos em sintonia com tudo o que está e é à nossa volta. Pensamos que o mundo em que não mexemos é longínquo e não percebemos a maior parte das coisas que nos acontecem. Pura desatenção.

A forma como olhamos para as coisas transforma-as. Somos nós que construímos as realidades à nossa medida. Tudo está sempre incompleto. Possibilidades são tidas como realidades porque assim o percepcionamos. Não é por acaso que uma mesma realidade é percepcionada de formas diferentes por pessoas diversas, não é à toa que o nível mais básico e fundamental da natureza não é material, actua para lá do alcance do espaço e do tempo que, muito simplesmente, também não existem materialmente.

Vivemos num mundo onde não há objectividade, onde cada cadeira em que nos sentamos é constituída por átomos ultramicroscópicos, constituídos por partículas sub atómicas. No domínio quântico, os acontecimentos ocorrem à velocidade da luz e, a essa velocidade, os sentidos não conseguem processar tudo o que contribui para a nossa experiência perceptiva.

Resta-me pensar, aqui na cadeira onde me sento e me sinto, que o mundo que eu vejo não existe fora do entendimento que dele tenho, as coisas em que não mexo, não olho ou não experimento, fazem parte de um domínio não local que, por força da teimosa segurança que procuro, insisto em inscrever numa materialidade inventada.

17.5.08

ATRAVÉS DO VIDRO


(Kandinsky)


Às vezes, olhar através do vidro, faz com que esqueçamos o tempo. Ficamos a pensar se, para lá do que vemos, também existe realidade.

16.5.08

A SÉTIMA CURVA

À sétima curva, ouviu os pneus do carro derraparem no asfalto. Sentiu os músculos das mãos rígidos, como que absolutamente imersos em goma-laca. Viu-se incapaz de controlar o volante girando entre os dedos. O som da borracha a derrapar no alcatrão ensurdeceu-a. Bateu com a cabeça no tejadilho, o cinto de segurança começou a asfixiá-la. O corpo sacudia-se ao ritmo das voltas que o carro dava. À sétima curva despistou-se.Não soube contar o tempo até que parou, mas contou cada um dos rodopios. Um, dois, três, quatro. Ouviu o pára-brisas quebrar-se. Susteve a respiração o mais que pôde. O sangue começou a escorrer-lhe do nariz, quente, pastoso. Pensou que partira um braço, talvez uma perna, talvez as duas. Os pedais enredaram-se-lhe nos pés. Achou-se presa numa gaiola de lata e fumo.Nos minutos que se seguiram ao embate lembrou-se de todas as pessoas a quem já não via há muitos anos. Pensou como o tempo e a distância, por muito curtos que sejam, podem divorciar-nos uns dos outros. Tanta gente do outro lado da cidade, apenas a meia dúzia de passos, e há tanto tempo se não viam. O turbilhão das manhãs de trânsito, o frio da neve a entranhar-se nos ossos, o cansaço dos dias de trabalho a acumular-se sobre o casacão pesado. Tantos e tão genuínos motivos para regressar rapidamente a casa e adiar uma, outra, todas as vezes o cruzar de olhos com tanta gente de quem, desfalecendo naquele carro, sentiu repentinamente saudades.Moscovo parecia-lhe sempre povoada de fantasmas, gente muito magra ou muito gorda, muito bela ou muito feia, muito jovem ou muito velha, mas toda ela desconhecida, gente que deslizava sobre as calçadas escorregadias, gente que mais não era do que manchas na paisagem, que mais não era do que a fumaça que lhe saía das bocas e rasgava o ar frio.O corpo, dentro do carro, enregelava lentamente. À sétima curva, nem vivalma. Por aquela estrada não passava ninguém. Deixou-se ceder e afogar no sangue que lhe encharcava as roupas. A vista da cidade emoldurava-lhe o rosto maltratado pelo embate. Ao fundo,o turbilhão daquela manhã de trânsito, o frio da neve a entranhar-se nos ossos, o cansaço dos dias de trabalho a acumular-se sobre muitos casacões pesados. À sétima curva, enfim, adormeceu e com ela levou Moscovo inteira na memória.


(Moscou-Kandinsky)

Marta Botelho - Viagens Interditas.

A propósito deste convite.

15.5.08

DOBRAS E GRITOS (20)


(Kandinsky)

Repetem-se os dias que teimam em não ser iguais. Porque a vida não permite monotonia quando a alma permanece inquieta. Se há coisa que me irrita, é a rotina desmedida e ténue de um tédio anunciado e morno.

14.5.08

GESTOS MORTAIS


(Kandinsky)

Os portugueses continuam a ter comportamentos de risco. O preservativo não é usado na maior parte das primeiras relações sexuais. Continua a crença de que o mal acontece apenas aos outros. É a mentalidade pequena e idiota, inconsciente e inconsequente de quem não quer ou não consegue pensar que a vida também pode acabar com um gesto bonito.

13.5.08

EM VEZ DE AMAR


(Kandinsky)

Sem amor não vivo, não respiro, não grito, não abraço, não beijo, não olho e não vejo. Sem amor não existo, não me deito, não ando, não como e não falo. Sem amor não canto, não rio e não penso.
Sou nada e coisa parada quando, em vez de amar, sobrevivo.

12.5.08

PEQUENAS GRANDES CRENÇAS


(Kandinsky)

No tempo em que eu sonhava em ser princesa, acreditava também que elas existiam!

11.5.08

DOIS DIAS


(Kandinsky)

Cada vez mais sinto que, os fins-de-semana, são bocados de tempo usados para tudo ou para nada. Se formos pela primeira hipótese, podemos descobrir em dois dias o que, às vezes, leva meses a descortinar. Se formos pela segunda, podemos fazer do tempo a maior guerra contra os sentidos.

10.5.08

BLOGGERS ESCREVEM KANDINSKY (Teresa C.)


(Moscou)

Alcandorados, descem ao rio. Quando o há. No âmago das cidades, sendo planura o chão, os telhados ge(r)minam aboletados. Resguardam o casario e as gentes que dele fazem casa ou sítio de labor pago. Circula sangue vivo nas ruas cavadas pelos fossos entre telhados.
Amanhecem tranquilas as cidades. Enganador o vazio do alcatrão e das calçadas – no descompasso da hora que rege de cada um o dia, chegam caminhos apressados e a cacofonia. Pelo movimento do sol – porque assim percepciona quem, pregado ao chão, o vê acordar e morrer pela tardinha – chega a obscenidade dos roncos motorizados e dos guinchos das buzinas. Abafados, ficam sons outros que às cidades pertencem e dão vida: o saudável vozear dos humanos que entre si estabelecem pontes, a música tocada pelas folhagens ou o linguajar próprio dos cães e aves.
E, quando a cidade esgota pelo cansaço quem nela habita, fica por conta dos morcegos e daqueles para quem o dia é turno da noite. Nas horas de todas as sombras, as catacumbas sobem à superfície.

Teresa C. - Sem Pénis Nem Inveja

9.5.08

BLOGGERS ESCREVEM KANDINSKY (Leonor Barros)

O Homem e a Cidade

O homem não inventou a cidade; a cidade é que criou o homem e os seus costumes.
Guillermo Cabrera Infante

A frase paira no confronto com a urbe. O homem ou a cidade, quem criou quem? Uma questão que se me põe quando, de cachecol e luvas, atravesso a cidade quase despida, uns farrapos de neve sobre o casaco negro, o frio cortante como nunca antes se sentiu. Dor. O frio dói, e, contudo, é bela a cidade. E a frase volta quando ziguezagueando desemboco no Canal Grande e ouço o vociferar dos gondoleiros na manhã ensolarada. Está sol e o sol não dói. A cidade não dói. Quem te criou assim, cidade? Ouço-a de novo no miradouro de Santa Luzia, o casario como um tapete bordado até ao Tejo, palavras de poeta amancebadas com a cidade lá em baixo. Foste tu, poeta, que criaste esta cidade que ouço? E regressa sempre a frase, eterno enigma, que resolvo na tela colorida. Aquela não é a cidade. Não a que vi. Outra cidade, vibrante, um turbilhão cromático, e bela, igualmente sedutora. Foi o homem que inventou aquela cidade.

Leonor Barros - Geração Rasca

8.5.08

BLOGGERS ESCREVEM KANDINSKY (Alba)



A Cantora


Esta é a minha última actuação.
Fui interprete dos sonhos e das palavras dos outros durante muito tempo.
Alimentei-me de palmas que ouvia e de rosas e poemas que recebia.
E fui tantas mulheres em tantas vidas.
No palco era fácil apartar-me de mim e ser outra, em outra vida diferente.
E cantei-(te) os gritos de mulheres alucinadas de paixão, os lamentos dos amantes que se perderam e a dor de um homem que não sabia amar.
Fui feliz, cantando o cansaço das noites brancas e a alegria dos dias rubros.
Entoei palavras novas, de tão usadas por outros antes de mim, mas sempre verdadeiras porque vestiam o encanto dos acordes do teu piano, que eu escutava nas minhas veias.
Tu, o gémeo dos meus segredos, tu que acariciavas o meu rosto no teu
regaço, tão suave, onde eu amanhecia nessas nossas alvoradas de todos os prodígios.
Tu que, noite após noite, transformavas a minha mágoa em música, porque
cada acorde do teu piano, me devolvia o raio de sol que iluminava o jardim encantado da minha infância.
E a partir de agora, meu amor, só quero despir-me de todos os adornos e véus que usei e ouvir-te murnurar o meu verdadeiro nome.
Porque tu sabes, tu és o único homem que conhece o meu verdadeiro nome.

Alba - A Clareira

7.5.08

BLOGGERS ESCREVEM KANDINSKY (Titeo)

A Cantora

a sonoridade azul despe-me da seda selvagem onde me envolvo. alastro-me no rio leitoso das palavras molhadas no som do teu piano e os fios do timbre dedilham-me o corpo. vazei o medo no cálice do meu punho. permaneço indiferente à plateia que não vejo. pressinto-a. uma verticalidade de sonho integra-me. misteriosa. deslizo no teu palco de ilusões. serei musa no teu peito. inatingível. gritante. serei puta no teu leito. serei assombro e amante. serei tudo o que quiseres quando me olhas. fascínio. diva das noites do sul. sopro de vento em delírio. nesta calmaria aparente serei mulher. mas diferente. longínqua do teu domínio. clama pela imaginação a minha voz que te estremece. sente no sangue que corre as histórias dos teus amores. abraça de volta a loucura. lambe as lágrimas. solta as dores. repara como eu mudo a cada improvisação. sou a tua voz num palco. sou a arte. serenata. sou a tua alma insensata. sou o teu mundo com uma rosa na mão.

Titeo - Entre o sol e as Brumas

6.5.08

BLOGGERS ESCREVEM KANDINSKY (Manuel S. Fonseca)

“A Cantora”, de Kandisnky

Se me disserem que é azul, eu digo que mentem. Há um silêncio roxo ou púrpura que esmaga a cantora (ou é uma noiva?) geométrica e branca. Ao fundo, o pianista dissonante poderia ser, como Kandinsky que o pintou, um notário.
Não tenho a certeza de gostar de Kandinsky. E ele ralado... Seja como for, as “Composições” de Kandinsky – ao contrário desta “Cantora” de 1903 – são, quanto mais abstractas, mais vibrantes e tão musicais como ele achava que toda a pintura deveria ser.
“A cor é como as teclas, os olhos são as harmonias, a alma é um piano de múltiplas cordas”. Palpita-me que Kandinsky terá dito isto alguns anos depois de ter pintado “A Cantora”, o mais silencioso dos quadros. Um silêncio em roxo e púrpura. Igual, e também foi o russo pintor que o disse, “ao silêncio do corpo depois da morte”.

Manuel S. Fonseca - Geração de 60

5.5.08

KANDINSKY PROVOCA BLOGGERS


(Moscou I)

Dois quadros, alguns textos.


(The Singer)

Foi simpática a resposta de alguns bloggers ao meu convite: escrever a partir de um quadro de Kandinsky.
O meu sincero agradecimento ao Manuel S. Fonseca, Leonor Barros, Titeo, Teresa C. , Marta Botelho e Alba.
A partir de amanhã serão publicados os textos que gentilmente me enviaram. Bem Hajam.

7 - KANDINSKY



Wassily Kandinsky nasceu em Moscovo, no dia 4 de Dezembro de 1866. Filho único, seu pai sustentava a família com os rendimentos dos negócios do chá.
Em 1871 mudou-se para Odessa, em consequência do clima Moscovita. Seus pais divorciaram-se e a sua educação ficou entregue a uma tia. Três anos depois começa a receber as primeiras aulas de desenho e música. Aprende a tocar piano e violoncelo.
Em 1886, entra na Universidade de Moscovo, podendo assim viver na sua cidade predilecta. Estuda Direito e Economia mas mantém estreito contacto com a pintura e a música.
Segundo palavras do próprio, dois acontecimentos foram decisivos para a sua opção pela arte: a exposição dos expressionistas em Moscovo e uma ópera de Wagner no teatro da cidade.

Kandinsky considerava existentes as relações entre as cores e os sons. A música e a pintura fascinavam-no de tal forma que se tornaram a chave principal de sua convicção artística e o ponto de partida para toda sua obra.
Em Outubro de 1912, consegue organizar a sua primeira grande exposição individual. Após a ruptura com a era materialista, nascia para ele um novo reino espiritual cuja forma de expressão adequada seria a pintura abstracta na qual trabalharia com afinco.
Os anos de Guerra não o pouparam a terríveis privações. Apesar das dificuldades não perdeu o seu entusiasmo pelo trabalho e continuou a escrever diversos artigos em defesa da arte abstracta.
Em 1939 kandinsky e sua mulher adquirem nacionalidade Francesa.
Termina a sua última grande obra À Volta do Círculo em 1940. Até ao fim, Kandinsky, continuou a pintar pequenos cartões, apesar de incapacitado por uma arteriosclerose.


Morreu no dia 13 de Dezembro de 1944, em Neuilly-sur-Seine aos 78 anos.

4.5.08

MÃE É MÃE

Para as mães, dia cheio de filhos por perto, abraços, beijos e muito riso. Sucesso, glória, contentemento. Parabéns.

1.5.08

BRANCO


(Paula Rego)

O dia em que as mulheres se vestem de branco. Mãos atentas. Gestos pensados. Desassossego. O tempo de quase todos os prazeres.

30.4.08

COISAS QUE ME INQUIETAM (1)

Ando com uma dúvida há dias. Não me sai da cabeça a necessidade de entender se o amor é um sentimento ou uma capacidade.
Quem me manda ver filmes inquietantes?

OBJECTOS QUE OLHAM


(Paula Rego)

Na sala onde nos sentamos para ouvir sentimentos, há objectos que olham, como se quisessem dizer-nos que a verdade continua adiada.

28.4.08

GRITO DA SEMANA


(Paula Rego)

O tempo que gastas com nada é o tempo em que não és, não pensas, não sentes, não existes. O tempo que gastas com nada é o que dedicas a tudo o que não interessa, não compensa, não satisfaz, onde tudo se desfaz em minutos vadios e estúpidos. Quando encontras a consciência de que gastaste o tempo com nada, resta a lamúria, porque bocados de vida foram para o lixo. Depois, pensas que, um dia, recuperarás essa espécie de perda. É mentira. Destruiu-se, de vez, o tempo que escolheste gastar com coisa nenhuma.

24.4.08

DOBRAS E GRITOS (19)


(Paula Rego)

Fim de semana com três dias. Ir para longe. Horas vazias de rotina. Mar à vista. Música escolhida com os copos cheios de sentido.

ROUPA VELHA


(Paula Rego)

Vestir roupa velha nos finais de tarde que convidam a permanecer em casa, é como degustar um prato suculento em horas de apetite desmedido. A experiência de ficar despojada de tudo o que não tem aspereza, finura nova, textura hirta, é comparável à sensação de nudez do mundo.
Fecha-se a porta ao mesmo tempo que se desnudam pés, se solta o cabelo e se abre o chuveiro de água tépida. Resta a fruição, o gosto, o prazer completo.
A música ao fundo do corredor acompanha os passos molhados num soalho vadio, gasto e escuro. Escolhe-se, sem cuidado, a roupa que é eleição de horas vazias. O corpo aconchega-se ao cheiro dos dias que passaram pela vida de uma blusa que não tem preço. Braços escorregam pelas mangas de algodão e, por segundos, sente-se a história de uma peça quase inútil.
Distribuir passos pela casa com trapos velhos, é ter na alma o corpo inteiro, decidir num instante prolongado aquilo que não é mais do que silêncio. Roupa velha. Roupa triste e gasta, feia, descolorada e comprometida com quem a acolhe.
Quando os finais dos dias convidam a permanecer dentro de um mundo cheio de eus, a roupa que outrora serviu para mostrar o corpo cheio de outros é, agora, o trapo que diz as ideias bem dispostas de quem já saiu de cena, viveu infernos de frio e quente, ouviu palavras desajustadas e voltou à jazida do que é quieto.
Cai a noite. Voltam os pés ao soalho gasto e antigo. Abre-se a porta e o sono. É hora de deixar cair a roupa. Perto do chão existe o lugar onde o corpo se deita para, em algumas horas, deixar de estar presente no lugar dos sonhos.

22.4.08

DIAS CONTENTES


(Paula Rego)

Depois de terem passado as horas em que o mar se agitou, sentou-se. Estavam muitas pessoas. A mulher permaneceu entre o copo e o silêncio. Sentaram-se no chão, ao seu lado. O livro era-lhe familiar. Os olhos cruzaram o clima seco dos cigarros e do contentamento:
- Porque escreves?
Ficou quieta. Quando as perguntas são novas, as respostas não acontecem.

21.4.08

GRITO DA SEMANA


(Paula Rego)

Hoje não me apetece mais que isto: dizer a toda a gente que, nem sempre consigo escrever coisas, bonitas ou outras. Fica o registo inquieto da mulher cansada das palavras que não deu. Grito mais alto que Thoreau na sua cabana do bosque. Que me oiça quem quiser saber quase nada.

18.4.08

TEXTURAS


(Paula Rego)

Somos todos farrapos de uma textura tão uniforme e diversa que cada peça, a cada momento, esvoaça como muito bem lhe apraz. E existem tantas diferenças entre nós e nós próprios como entre nós e os outros.

(Michel De Montaigne)

DOBRAS E GRITOS (18)

Com a chuva anunciada para o fim de semana, talvez seja melhor ficar perto dos livros que ainda não li.